Eu sempre soube que era diferente. Diferente demais até para me identificar com os diferentes, diferente demais pra me sentir confortável em qualquer lugar. Minha infancia, não passei fome, não tive pais separados, não tive familia ausente, mas eu não me enquadrava.

Meninas brincavam de boneca, meninos jogavam bola, eu odiava bonecas e durante muito tempo não pude jogar bola. Nunca gostei de meninas. Sempre abominei todas elas e aquele mar de rosa e barbies purpurinadas com aquele tom de desprezo velado sempre que se referiam a alguem diferente. Sempre odiei aquelas frescuras, aquele medo de bichinho e de se sujar. Sempre odiei. Odiei tanto que prometi que nunca seria parecida com aquilo.

Eu sabia que a minha diferença era mais grave, quando começaram a achar que eu era lésbica. Para o desespero dessa sociedade escrota, eu não gosto de meninas. Mesmo. Todo mundo me julgou sem nem pensar. Eu sofri buylling por algo que eu nunca fui. E eu sei que demorou um tempo para que as pessoas mais proximas de mim ficassem convencidas do que eu realmente gosto. Hoje em dia eu não ligo mais para o que pensam, na verdade, acho que nunca liguei.

Eu odeio padrões e por isso os observo com muito cuidado. Eu não sei porque, mas as pessoas normalmente seguem padrões, tão naturalmente que nem contestam se aquilo é realmente parte delas. Essa coisa de ter que agir de uma forma porque fulano de tal fez assim e deve dar certo. Essa coisa de gostar de coisas que “pessoas normais” gostam, de mulheres lerem revistas de fofoca ou homens terem que gostar de futebol.

Eu sempre me senti deslocada, nem sempre estive ali presente o tempo todo. Por várias vezes eu estive em lugares diferentes com a mente e o corpo. Em várias e incontáveis situações.

Hoje em dia, eu agradeço a Deus por ter encontrado outros deslocados. Eles não se parecem comigo, nem eu com eles, mas já passamos por coisas parecidas e nos sentimos bem, deslocados ou não, na presença uns dos outros. E eu sei que existem outros por aí, com medo e procurando padrões em quais possam se enquadrar. Lamento informar, mas não encontrarão. Busquem ser felizes como são e não como dizem que vocês devem ser. O que é melhor pro seu coleguinha, pode ser uma merda pra você.

No mais, eu odeio que me enquadrem, me limitem ou me julguem errado, mas eu sei que isso sempre vai acontecer.

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